Óleos de peixe - ácidos gordos essenciais na alimentação
Introdução
A alimentação é um dos factores exteriores ao Homem
que maior influência exerce na sua saúde e, consequentemente, na sua qualidade
de vida.
Uma alimentação desajustada das necessidades vitais
do Homem pode estar na origem de diversos problemas de saúde.
Actualmente, vive-se uma situação paradoxal no que
toca a esfera da alimentação, dado que as doenças provocadas por carências
alimentares co-existem com as provocadas pelos excessos.
Enquanto em alguns pontos do globo ainda se morre
por carências nutricionais graves, proteicas, calóricas e vitamínicas, nos
países ditos desenvolvidos e industrializados, a morbilidade e mortalidade por
causas relacionadas por erros alimentares são cada vez maiores.
Afinal, o
que se entende por gorduras em termos nutricionais?
As gorduras constituem um grupo heterogéneo de
substâncias, como óleos, ceras, fosfolípidos e outros compostos relacionados.
A forma mais comum desta substância nos alimentos
são os triglicerídeos, que são compostos por uma molécula de glicerol, esterificada
por três ácidos gordos.
Os ácidos gordos são a forma mais simples em que
são decompostas as gorduras.
A gordura é uma excelente fonte de energia (9
Kcal/g), sendo igualmente a forma de armazenamento de energia não necessária ao
organismo, qualquer que tenha sido a forma de ingestão. Por exemplo, hidratos
de carbono ingeridos em excesso, são transformados em ácidos gordos e
armazenados no tecido adiposo.
Para além da função energética, a gordura alimentar
é necessária para a síntese dos fosfolípidos das membranas celulares e de
inúmeras outras substâncias, participam na regulação térmica do organismo e
facilitam o transporte e a absorção das vitaminas lipossolúveis (vitaminas A,
D, E e K).
As gorduras líquidas, como o azeite e os óleos, são
grandes fornecedores de ácidos gordos, seguidas da manteiga, margarina e banha.
Ácidos
gordos
Os ácidos gordos podem ser classificados, de acordo
com a sua estrutura química, em saturados e insaturados. Dentro da classe dos
insaturados, podem classificar-se em monoinsaturados e polinsaturados.
Os
monoinsaturados são os ácidos gordos ómega-9. O mais conhecido é o ácido oleico
que se encontra sobretudo no azeite, embora também exista no abacate, nas
amêndoas, nas nozes e nos amendoins. Os ómega-9 não são essenciais: - quando há
défice alimentar, são endogenamente compensados por aumento da sua síntese no
fígado.
Os ácidos gordos poliinsaturados podem pertencer a
2 grandes famílias: os ómega-3 e os ómega-6. Existem dois tipos
de ácidos gordos poliinsaturados. Os ácidos gordos ómega 6 e o ómega-3.
Os
ómega-6 estão disponíveis, sobretudo, nos óleos vegetais.
Os
ómega-3 derivam:
a)
de plantas - ácido linoleico que existe no óleo de linhaça, no óleo de soja e
no óleo da semente de colza;
b)
de fontes marinhas - o DHA ácido docosahexanóico, proveniente de peixe, da
foca, da baleia, de marisco e o EPA ácido eicosapentaenóico, que também existe
no peixe e marisco. O abacate e o óleo de cânola são também ricos em ómega-3.
Ómega 3
Os
ómega-3 e 6 são considerados ácidos gordos essenciais, porque sendo
indispensáveis para múltiplas funções, o organismo não é capaz de o sintetizar,
pelo que têm que ser fornecidos pelos alimentos ou suplementos. Os seres
humanos não possuem enzimas que convertam as gorduras em ácidos gordos ómega-3
e 6, pelo que eles têm que ser separadamente adquiridos através das fontes
nutricionais.
Quando,
no regime alimentar, um dos tipos de ácidos gordos (ómega-3 ou ómega-6) é
consumido em excesso, o metabolismo do outro poderá diminuir, pelo que se
aconselha aporte nutricional equilibrado para cada um deles.
No
entanto, a alimentação ocidental é abundante em ómega-6, a partir de óleos vegetais
ricos em ácido linoleico, o qual se encontra disponível no milho ou no
girassol. Daí que os suplementos mais úteis e necessários sejam os que fornecem
ómega-3.
É
importante referir que nos países ocidentais, sobretudo a partir dos anos 60,
passou-se a consumir mais óleos vegetais por serem recomendados como medida
segura para baixar os níveis de colesterol.
A
propósito do peixe, é importante saber que este constitui um óptimo alimento. Existem,
entretanto, na população portuguesa muitos mitos que não são verdadeiros. A
maioria das pessoas ainda considera que o peixe mais gordo, a que chamam "peixe
azul" (como por exemplo o arenque, a truta, a carpa, a anchova, o atum, a
cavala, a sardinha e o salmão) são prejudiciais à saúde. O peixe menos gordo ou
peixe branco (abrotia, faneca, tainha, linguado, pescada) é aquele que é
considerado como saudável, pelo que deve ser consumido preferencialmente pelos
indivíduos doentes.
Outras
pessoas acreditam que, qualquer que seja a margarina, indiferentemente da sua
composição e/ou consistência, esta gordura é sempre superior à manteiga no que
respeita à saúde, ao passo que o azeite não é tão bom quando comparado com
qualquer dos óleos vegetais alimentares existentes no mercado.
Estes
falsos mitos têm que ser combatidos para que não se cometam erros nutricionais.
É necessário que campanhas e mensagens preventivas devam ser constantemente
implementadas com o objectivo de consciencializar a população para factores de
risco e para a necessidade de adopção precoce de medidas preventivas.
Em
1997, num inquérito realizado pela Matris em Portugal (no Litoral, no Norte, no
Centro, no Sul, no Interior, em Lisboa, no Porto), muitos dos inquiridos
estavam conscientes de que qualquer gordura é prejudicial à saúde. Metade deles
também considerava a gordura do peixe (gordo) nociva à saúde e, cerca de 10%,
achava que o azeite não era igualmente bom para a saúde.
A
título de curiosidade, muitos estudos epidemiológicos foram realizados nos anos
70, na Gronelândia, sobre a incidência da doença cardiovascular na sua
população, tendo-se verificado que a mesma era de baixa incidência, embora a
alimentação da população fosse rica em gorduras.
Foi
ainda observado que a taxa de mortalidade cardiovascular era cerca de oito
vezes menor do que a dos esquimós que passaram a viver na Dinamarca e cuja
alimentação passou se ser predominantemente europeia (rica em ácidos gordos
saturados e pobre em ácidos gordos insaturados). Foi também verificado que
outros povos, tais como os japoneses que comem muito peixe, tinham igualmente
um baixo índice de mortalidade por doença cardiovascular.
A
razão que levou investigadores dinamarqueses - Bang e Dyerberg - a relacionarem
a baixa mortalidade da doença com os ácidos gordos da alimentação, a qual
consistia essencialmente em peixe gordo, baleia, foca e orca, foi a de que a
relação entre a mortalidade por doença coronária e o consumo de peixe é inversa.
Iniciaram-se, a seguir a estas observações, estudos de correlação causa-efeito,
procurando identificar-se que mecanismos de acção seriam responsáveis por esses
resultados.
A
maioria dos estudos permitiu confirmar a associação inversa entre consumo de
peixe e risco de doença coronária, verificando-se que quanto maiores fossem as
concentrações plasmáticas em ómega-3, tanto mais significativa era a redução do
risco de morte súbita, quer em doentes pós-enfarte do miocárdio, quer noutras
populações de alto risco para o desenvolvimento de doença coronária.
Estas
observações ficaram demonstradas numa revisão sistemática de onze estudos
prospectivos, levada a cabo por Marckmann e Gronback, a qual foi publicada em
1999.
Em
vários outros ensaios clínicos foram avaliados os efeitos não só do consumo de
peixe, mas também de suplementos de óleos de peixe em portadores de doença
cardiovascular.
Os benefícios do óleo de fígado de bacalhau
O óleo de fígado de bacalhau é um produto alimentar
com uma história bem conhecida que se estabeleceu inicialmente nas comunidades
das zonas costeiras de pesca - Escócia, Islândia, Noruega e Gronelândia - há
centenas de anos atrás, quando era utilizado para proteger do frio agreste que
caracteriza estas zonas do globo.
É extraído do bacalhau cozinhado, assim como os
óleos de peixe são extraídos de tecidos cozinhados de peixes gordos. No entanto,
a composição do óleo de fígado de bacalhau e dos outros óleos de peixe é
diferente, daí o interesse desta associação única e complementar - o óleo de
fígado de bacalhau é mais rico em vitaminas lipossolúveis A e D, enquanto os óleos de peixe são mais concentrados
em ácidos gordos ómega-3.
Conclusão
Os ácidos gordos essenciais, como os ómega-3 EPA e
DHA, estão directamente envolvidos em diversos processos biológicos do nosso
organismo, desde o normal desenvolvimento do cérebro e da visão até à regulação
da pressão arterial e dos mecanismos de defesa do sistema imunitário.
Os ómega-3 são popularmente conhecidos, sobretudo
pela sua importante contribuição para a prevenção das doenças cardiovasculares,
nomeadamente pelo seu contributo para baixar os níveis de triglicerídeos e de
colesterol LDL, o mau colesterol.
No que diz respeito a estas últimas acções,
saliente-se que a alimentação rica em peixes gordos e a toma regular de um
suplemento adequado constituem atitudes preventivas benéficas e eficazes.

